Ele acordou e eu acordei com ele. Ele levantou e disse que tomaria banho, mas foi tomar café. Eu levantei logo depois, fui até a geladeira. Ele sentado comendo diz que gosta de mim quando acordo, eu esboço um ruído qualquer. Pego o cereal, o iogurte, o kiwi. Sento. Não olho para ele e sim para a janela; ele acaba de comer, levanta e não me beija.
Eu sei eu sei que ele me ama. A culpa não é dele, ele tenta fazer o melhor. Eu não penso nada. Beijo na nuca, ele coloca as mãos nos meus ombros. Acho que ele quer tomar banho, mas também mostrar que me ama. “Ainda estou com fome”.
Depois de comer o pão, beijo no pescoço. Não olho para ele, não tenho o que dizer. Será o fim? O que eu sinto? Eu o amo? Ele me deixa sozinha. Será que ele me deixa sozinha? Ele sai do banheiro, entra no quarto e senta na cama. Eu de costas para ele. Sinto-o, como a lembrança de alguém que não está mais presente. Ele não existe. Entretanto não quero ser indelicada, quero mostrar que o amo, não fazer drama. Volto-me e o encaro; não consigo sorrir, nem pensar em algo para dizer. Meu deus! não quero que ele pense que não o amo.
Ontem: “se você tiver algum problema, você me fala?” “mas nem sempre que eu tenho um problema eu sei que tenho um problema. O problema é esse.” Qual será o problema agora? Ele pergunta se vou ao jantar dos amigos com ele. Digo que não, faz frio. Ele diz que o aquecedor estará ligado, que haverá muita gente no mesmo quarto, que tudo isso mais o vapor da comida cozinhando vai fazer com que o ambiente fique mais quente. Ele quer que eu vá. Será que eu quero ir? Será que eu quero vê-lo? E aos amigos? Será que é ele os problema ou sou eu?Olho para o rosto dele, ele me ama, está tentando criar um vínculo, me deixar feliz. Sabe que alguma coisa não está bem.
Talvez eu não queira mesmo ir ao jantar. E se eu estiver de mau-humor? Não vou querer falar, e se eu vestir minha cara de deprimida, vai ser ridículo. Mas pode ser bom, pode ser que eu me divirta; lembro que a última vez que saímos, os amigos dele me agradaram muito. Mas será que hoje eles me agradarão? Porque se tudo está diferente, isso também pode estar. “Espero que você venha” Beijo, beijo, abraço, beijo. Onde eu estou para receber esses carinhos? Se eu fecho os olhos, ele desaparece, como que apagado de um desenho. Ou será que fui que deixei de existir?

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